4 de maio de 2012

Lua em Cor de Cobre



Marco e Luiza continuam pelo deserto. Quando a noite tomba, aproximam-se da tenda e veem, sobre a planície, a lua que desmaia em cor de cobre.
- Ó noite! Grande noite!..., exclama Marco. Se o vento nos levasse em suas asas!
Ao lado da fogueira, nos imensos jardins do oásis, como amante em noite de núpcias, Luiza se prepara à beira da fonte.
- Onde acabará esta viagem? Haverá outros jardins, sob um céu mais tranquilo? Tivemos um casamento feliz? Com que sonhas agora, querido? Toda minha alma suspira, enlanguesce junto a ti.
Percebem que são livres para inventar a vida, o amor, mas o preço disso é a completa imprecisão.
- Quem somos nós? O futuro mostrará? Quando o futuro chegar, a pergunta mudará? Será que fizemos o que queríamos? Será que preenchemos todo nosso destino?
Jamais irão saber. O destino habitava justamente a alma selvagem que entregaram em troca de conforto e paz espiritual. Deitam-se ao lado de um ralo tufo de palmeira, sob a lua ensanguentada, e soluçam de amor pela noite.
No dia seguinte, o deserto cobre-se de miragens, e partem amparados pela visão de não se sabe qual felicidade, como quem prepara cuidadosamente um sonho.
Marco canta as florestas profundas, o odor das folhas e dos musgos, as brumas da manhã e a umidade que há nos prados. Luiza ouve com calma, menciona o azul mais claro, o ar menos escaldante, a noite menos tórrida.  
- Lá estaremos em breve?

3 de maio de 2012

As Flores Secas do Amor


Marco saía do bosque e, ainda noturno, sentou-se no declive para esperar o sol nascer. Diante dele, estendia-se a relva úmida, onde havia flores de todas as cores e névoas de todos os reflexos.  Marco esperava a felicidade, confiante, a pensar que ela viria como o pousar de um enxame e que tudo, para ele, já estava a caminho.

Apanhou flores e desceu ao fim da colina, em direção às fontes, para nelas molhar o rosto e mirar-se no espelho das águas. Voltou-se, rumo a casa, onde Luiza ainda despertava, sozinha e pensativa.

- Veja, são flores do bosque. Elas vivem na sombra. Colhi-as para você, disse Marco. Venha comigo!

Luiza sorriu atenciosa, com os cabelos desfeitos pela noite. Marco tomou-a pela mão e caminharam até a relva. Sonhavam com o amor, temiam a posse, aprendiam confidências e a intimidade tornava-se mais secreta.

As perguntas eram desejos, a satisfação eram respostas. As noites vinham sem sono, tão belas que nem fechavam as vidraças. Dormiam assim, à luz da lua, com uma trepadeira de rosas envolvendo a janela, derramando alguns ramos para dentro do quarto. O amor fazia-os dormir bem tarde, e acordavam com torpor, fatigados da noite.

As horas corriam depressa e viver já não era como antes. Eles logo se cansavam de colher flores no bosque e, por mais que Luiza implorasse, Marco não mais contava a história dos jardins suspensos na planície. Não iam sequer passear pelos campos.

Colheram cedo demais toda flor desejável, e entediaram-se junto ao sol. 

O Beijo Impossível


Narciso apaixona-se pela frágil imagem. Nas águas de um rio, debruça-se com uma necessidade de carícia, para estancar sua sede de amor. Mas não vê senão dois lábios e dois olhos, os seus, que o contemplam. 

Narciso sabe que o beijo é impossível. Esta só. O que fazer? Contemplar e contemplar, debruçado sobre a aparência do mundo.

Os desejos tornam sua solidão dolorosa. Decerto pensa haver outras terras, onde irá poder, longe desses morosos pensamentos, passear ao sol sua alegria inteira e, no esquecimento, acolher a felicidade sem escrúpulos nem receios.

No amor da floresta, sob a noite pálida e conselheira, renasce uma alegria secreta. Narciso ainda sonha com o paraíso.

Paraíso Perdido


Contemplo o presente. No futuro, as coisas só se apressam para ser. Eu as vejo, e elas passam, escoando-se para o passado. Interrogo-me, medito. São as mesmas formas que passam. Só a vibração é que muda.

Mas porque as mesmas formas?  Porque o mundo, por ser imperfeito, precisa sempre recomeçar, lançando-se em direção a alguma forma primitiva e perdida.

Desejamos ser felizes como se não houvesse mais nada pra ser, ou como se o passado não triunfasse sobre nós. Assim, por sermos imperfeitos, precisamos recomeçar sempre.

Toda obra que não se manifesta é inútil. Todo homem que não se manifesta é inútil. Tudo deve ser manifestado, até as coisas mais funestas. Toda obra simboliza um paraíso perdido, que se cristaliza em meio à multidão, onde o artista se isola, escapa às coisas, ao tempo.

Nele, lentamente, a obra se recria. O paraíso precisa ser refeito.

23 de março de 2010

Ficção em Vida

Dizem que a leitura está se tornando uma atividade cada vez mais feminina. A explicação é que as mulheres trabalham menos e, assim, se dedicam mais às fantasias. Como sou alérgico à divisão entre saias e calças, só me resta uma certeza: há cada vez menos leitores no mundo, e uma sociedade sem leitura está fadada a pôr sua própria liberdade em risco.
A
moda agora é a especialização do conhecimento. São os guetos de técnicos e especialistas que fazem do conhecimento uma utilidade programada - ponderando a vida com esquemas e fórmulas. A literatura, ao contrário, sobrou como único espaço para que indivíduos se dialoguem e se reconheçam como membros da mesma espécie, armando-se contra o preconceito, refletindo sobre o que somos e como lidamos com nossos atos, sonhos e fantasmas.

Esse conhecimento “totalitário” (e não especializado) do ser humano encontra-se, hoje, apenas no romance que, em prol da liberdade, continua como maior alimento contra as ofensas e imposições deste mundo que nos obriga a sermos iguais. A literatura nos torna mais complexos, mais intensos, mais lúcidos do que qualquer rotina forçada. A literatura é a grande confirmação que a única vida bem vivida está na ficção.

8 de março de 2010

Fim dos Desencontros - Salmo Final

Além de cafonas, os sites de relacionamento prometem encontros ou reencontros sob medida. Evita todo acaso e toda poesia existencial da incidência. A pessoa que age a partir do desejo de segurança, tende a enxergar, em suas relações, uma espécie de contrato. Quanto menos controlamos a vida, mais tentamos controlar o amor. Quanto menos controlamos o amor, mais tentamos controlar o trabalho. E assim seguimos... construindo nossa futura Babel.

2 de março de 2010

As Últimas de Babel

Um faquir aposentado em Bombaim, suicidou-se depois de abandonar a família para se dedicar à adoração ao Sol, ao Boi e à Cebola. Após ingerir, de forma letal, carne de boi ao sol, com bastante cebola, Amaro das Vinhas morreu de indigestão, mas feliz, já que praticara a teofagia, ou seja, comera seus deuses.

Nos EUA, o senador republicano Roy Ashburn, votou, durante 14 anos, contra todas as propostas de lei para expandir os direitos para homossexuais. Anteontem, no entanto, Ashburn, 55, divorciado e pai de quatro filhos, assumiu em entrevista a uma rádio que é gay. O senador foi parado pela polícia dirigindo embriagado, em carro do governo, enquanto saía de uma boate em Sacramento, ao lado de um homem não identificado.

O poeta mais famoso de Burma, saiu de casa completamente nu. Impelido por admiradores para o interior de um templo, o poeta bradou: "A poesia morreu! Deixem-me morrer também!". A polícia chegou e disse que o poeta podia morrer, mas teria que se vestir primeiro. Em sinal de protesto, o bardo preferiu contiuar vivo e nu.

No Rio de Janeiro, o menor Francisco Clementino, 11 anos, foi prezo em flagrante quando seduzia uma senhora de 65 anos. O juiz de menores sugeriu que alguém tomasse conta do garoto. Apresentou-se uma senhora de 65 anos, que o juiz desconfia ter sido a mesma que fora seduzida pelo menor.

No Tibete, voltou ao convento um monge budista que fora preso em Roma, em atitude de exibicionismo sexual. Repatriado, organizou uma expedição com outros monges para conhecer as tentações daquele lugar cristão e pecaminoso.

26 de fevereiro de 2010

Cristo gay? E daí?

Jesus Cristo, a figura mais controvertida de toda história humana, justifica-se por duas bases teológicas. A divina e a humana. É onde a confusão começa. Há os que duvidam (ou negam) que existiu o Divino da Judeia. De qualquer forma, o cara dividiu o mundo em duas eras, antes e depois dele.

Cristo é, de longe, o personagem mais estudado e citado na crônica dos homens, a começar pelo fato de que já possuía, ainda jovem, diversos biógrafos (Mateus, Lucas, Marcos, João, etc), a partir dos quais criou-se a pedra angular do Cristianismo, que dominaria o ocidente até os dias de hoje.

Outro fato igualmente arrebatador é que ainda surgem, 21 séculos depois, palpieiros que ainda arriscam algo sobre a vida íntima desse personagem. O cantor britânico Boy George, dia desses, alegou, em alto e altivo inglês, que Jesus era gay. All right Boy! Como todo cantor pop, você tem o direito de justificar suas preferências usando exemplos da história. Tarefa inútil! Muitos dos grandes vultos da crônica humana foram homossexuais assumidos ou não. E daí?

16 de fevereiro de 2010

Iluminismo Americano

Há uma percepção romanesca de liberdade nos EUA. Essa concepção traz, em sua essência, o risco e a coragem em assumir sozinho a responsabilidade pela vida - pagando seu alto preço existencial e econômico. As instituições americanas trabalham, há séculos, para impedir que o Estado crie mecanismos que o torne “parceiro” ou "intromissor" na vida das pessoas.

O engenho desse Iluminismo Estadunidense, muito diferente do francês, é a liberdade no lugar da igualdade. Todos são livres e ninguém é obrigado a carregar alguém nas costas. E como se não bastasse, os iluministas ianques desconfiam da natureza humana. Para eles, os direitos vindos do Estado são pretextos para proteger vagabundos que não acordam cedo ou não aguentam o risco da liberdade (o fracasso ao invés do sucesso), como acontece na Europa, que protege seus fracassados (desempregados, sem-tetos, etc) com intervenção estatal.

Então se perguntam: por que devemos nós, mais fortes, aprender com os europeus, mais fracos? E apelidam Obama de “rei inglês”, "socialista", "falso europeu", etc, já que algumas de suas reformas abrem caminho para que o Estado estanque seu fluxo liberalista, revelando-o incapaz de lidar com a famigerada “liberdade americana”.

12 de fevereiro de 2010

A Revolta dos Muros

São Paulo, como todo centro urbano, tornou-se um espaço neutralizado, homogeneizado. Um espaço da indiferença, dos guetos, das raças, dos signos. Cada instante da vida é perdido na consumação da diferença entre seus milhões de signos.

Tudo é concebido e projetado pelo habitat, transporte, trabalho, lazer, jogo, cultura. São Paulo não é mais um espaço geográfico. Sua verdade se tornou o gueto da televisão, da publicidade, dos leitores lidos de antemão, dos consumidores/consumidos, dos decodificadores codificados, dos circulantes/circulados, dos distraentes/distraídos do lazer. Em cada espaço da vida urbana se forma um gueto, e todos se conectam entre si.

O espaço de solidariedade - da antiga fábrica, do antigo quarteirão e da antiga classe social - desapareceu, todos separados por modelos de comportamento, em delírios de identificação. O levante do paulistano está em dizer: "Eu existo, eu sou tal, eu faço isso, eu vivo aqui e agora". Apenas a revolta da identidade: combater o anonimato reivindicando uma realidade exclusiva.

Na contramão disso tudo, aparecem os muros, com seus graffitis, celebrando a obscuridade. Eles não buscam conquistar uma identidade impossível, mas o extermínio dessa mesma busca - não querem dizer nada, são apenas registros simbólicos para derrotar o sistema comum, como se fossem a própria revolta dos signos. Explodem como um antidiscurso, numa recusa de toda elaboração sintática, poética e política.

Não têm intimidade ou vida privada, mas vivem uma intensa troca coletiva. O que reivindicam não é a identidade. Ao avesso, são feitos para serem doados, trocados, transmitidos ou religados entre si, num anonimato coletivo, no qual se declaram uma propriedade de ninguém.

1 de fevereiro de 2010

Na solidão de todos nós

Dia sim, outro também, recebo mensagens taxando meus textos de pessimistas, pretensiosos, imorais, "afetados", etc. Portanto, ocupo este mesmo espaço para declarar aos humildes e otimistas insurgentes que, como pessoa comum que sou, escrevo sem qualquer tipo de armadura que possa esconder minha miséria.

Me interesso muito mais pelo que as "pessoas comuns" têm a dizer, e há tempos perdi a intensão de ser reconhecido como alguém além do banal. Trabalho para sobreviver, como todos. Tento me virar como posso, fazendo contas do mês, lidando com medos e crises repetidas de baixa auto-estima. Apenas tento lutar contra a apatia do mundo e a hipocrisia geral que permeia a ordem das coisas.

Penso na mulher abandonada depois de anos de dedicação a um homem, só porque chegou aos 40 anos e porque não consegue mais sorrir tão fácil. Penso no homem que sabe que sua vida está pendurada por uma corda, apertando seu pescoço cada vez que pensa nos juros de seu cartão de crédito. Penso no idoso que não vê mais seus filhos porque envelheceu pobre. Penso em você, tomando seu café-da-manhã, sonhando com o amor e o sucesso, efêmeros como o vento. Penso e escrevo, meus caros, imerso na solidão de todos nós.

25 de janeiro de 2010

A natureza não precisa de nós

Não há palavras para as tragédias em Porto Príncipe, S. Paulo, S. Luiz do Paraitinga (a New Orleans brasileira) e demais confins. De longe, restou-nos a agonia, a fragilidade, o caos profundo. A vida forçada a parar, num apocalipse incitado por forças além do controle.

Vimos que a ciência e o homem somos capazes de explicar, mas não de prever e agir, com nossos modelos especulativos. Elementar, meu caro Watson. A Terra é um planeta borbulhante em suas entranhas, com placas que tencionam a mudar de posição em busca de equilíbrio, conforto, sem dar a menor importância para a destruição. Tragédias que expõem a crua realidade da vida. Precisamos da natureza, mas a natureza não precisa de nós.

15 de janeiro de 2010

Contraponto

Quem acompanha Diários de Babel, sabe que existe uma crítica constante à sociedade balizada pela eficiência, técnica e razão científicas. Pois bem. Um dos meus livros prediletos, “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, diz justamente que a alma torna-se superficial e fracassada frente a um futuro asfixiado pelo condicionamento da saúde, da alegria e de uma vida calculada.

Nestas idas férias, pude ler “Contraponto”, outro clássico de Huxley, que também nos lembra que adoramos habitar shoppings, calcular o colesterol de cada alimento, pesquisar parceiros que possam nos dar filhos saudáveis, tomar pílulas que nos deixam felizes, temer o “monstro da informação” que decide sobre nossas vidas, prisioneiros que somos da ciência, do sucesso fisiológico e da qualidade de vida.

O mote de Aldous, novamente, é a vida científica como mentira moderna por excelência. Nossa crença burlesca de que, com a ciência, chegamos à terra prometida. A utopia científica desumaniza, deixa a alma seca como poeira, como um vaso limpo, sem sujeiras, de onde nada brota.

23 de dezembro de 2009

As Cores de Barack

Uma pesquisa conduzida pelas universidades de Chicago (EUA) e Tilburg (Holanda), atestaram que o tom da pele de Barack Obama varia de acordo com a ideologia de quem a vê. Na prática, o estudo indica que as pessoas identificam um tom de pele mais claro com um candidato mais desejado.

Com base em imagens alteradas digitalmente, pesquisadores consultaram mais de cem universitários apontassem a foto que melhor representava Obama. Os liberais indicaram imagens clareadas, enquanto os conservadores indicavam as escurecidas.


Uma das hipóteses e que, culturalmente, os americanos estão mais inclinados a associar “luminosidade a algo bom e citam ainda a foto da capa da revista Time, com a foto do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson escurecida logo após ser acusado de assassinato.

10 de dezembro de 2009

Meu cachorro está com aquecimento global

O ateísmo se tornou muito óbvio diante de uma raça 70% abandonada e 30% não-abandonada. Deus, como insistem os filósofos, “é uma forma variável sem controle e sem origem”.

O marginalismo de hoje é não acreditar em aquecimento global. E confesso minha heresia: não acredito que meu pequeno carro aqueça o planeta - embora começe a pagar mais impostos por isso. Acho essa história uma mistura de ego (disputamos com o sol pra ver quem aquece mais) e principalmente tédio (que tal salvar o planeta? A vida está mesmo sem graça!).

O mundo aqueceu nos anos 20. A partir daí, todos os anos atingem os mesmos 34 graus no verão, pelo menos em minha cidade. Nosso problema é a retirada irresponsável de carbono da terra. Mas inventamos essa maldita crença. Meu cachorro anda triste? Deve ser o aquecimento global...

O que chamam de fato científico, só acredito quando não tem a ONU no meio e gente ganhando milhares de Euros para "salvar" o planeta.

4 de dezembro de 2009

Natal Diet

O Brasil se encontra, atualmente, entre os campeões mundiais em extravagância natalina. Excessos à parte, será que os gastos natalinos são pelo menos um bom negócio para a economia do país? Será que estamos criando ou distribuindo riqueza?

Joel Waldfogel, da universidade da Pensilvânia, defende que o Natal é uma calamidade econômica e destrói riquezas consideráveis. Para começar, perguntou aos presenteados quanto disporiam a pagar pelo presente que ganharam. Os agraciados, em média, estariam dispostos a pagar 47% do custo do presente. Ou seja, 47% do que foi gasto não produziu valor nenhum. Waldfogel, desse modo, defende o uso do vale-presente e do “dinheiro vivo” como presente.

É possível que a troca de presentes natalinos seja uma maneira de torrar recursos só para mostrar nossa “riqueza” (aos outros, ou a nós mesmos). Mas de quem amo, não espero aquele presente que procuro há tempos (já que eu mesmo posso comprá-lo). Espero algo que eu não sabia que queria. O verdadeiro presente é aquele que descobre meu próprio desejo.

Invasões Bárbaras

Está no Senado, enfim, o projeto de lei que pune a discriminação sexual. Pra variar, de um lado, a barbárie. De outro, a civilização. Bárbaros são aqueles que não toleram qualquer comportamento alternativo e buscam impor suas maneiras de ser aos demais. Civilizado é aquele capaz de criticar racionalmente o preconceito. É aquele que conhece o acaso. Sabe do acaso de nascer neste e não naquele país, pertencer a esta e não àquela classe social.

O fato de uma pessoa exercer determinada escolha não impede que a outra exerça a sua. No entanto, ainda ouço zumbidos de que o sexo não-reprodutivo contraria as leis naturais. Não seria um erro infantil confundir as leis da natureza, descritivas (que dizem o que realmente acontece), e as leis humanas, prescritivas (que dizem o que deve ou não ser feito)? O ser humano vive em constante e radical mutação.

Cada indivíduo é capaz de mudar a si próprio, criar o que ainda não existe, substituindo o instinto (natural) pela experimentação (humana). Esperemos que o Senado escolha o caminho da civilização.

2 de dezembro de 2009

Sanas da Medicina

Ninguém jamais acusou o médico romano Samodecus por ter impetrado a palavra-fórmula “abracadabra”. Samodecus, quando se tornou médico do imperador Tibério (líder que sofria de diversos males), adotou uma prática que se revelaria infalível. Escrevia a palavra “abracadabra” num papiro e mandava Tibério engolir junto a três goles de leite de cabra.

Tibério ficava bem e, tranquilo, se trancava no quarto para exercer sua atividade favorita: matar moscas. Generais, cônsules e escravos foram assassinadoss porque o interromperam nesses momentos. A mania de Tibério só podia ser interrompida quando ele mesmo decidia pegar uns garotos e levar para a piscina.

Historiadores renomados, em diversas épocas, tacharam Tibério de maníaco e depravado, pelas moscas e pelos garotos. Mas Tibério foi o que mais estendeu as fronteiras da Roma Antiga. Para ele, a fórmula deu certo.

27 de novembro de 2009

Um Deus Que Ainda Vai Existir

No início do século XX, o teólogo Teilhard de Chardin queria, de qualquer maneira, resolver os mal-entendidos entre ciência e religião. Na esperança por um mundo socialista (não-Stalinista), observou que, no dia em que houver um regime integralmente solidário, velhos organismos insistiriam em sobreviver. Um desses organismos seria a igreja. Mas como a igreja sobreviveria num estado ateu e socializante?

Resposta óbvia para o francês: encontrando um preceito que dê, a Estado e Igreja, bases para a coexistência. Foi assim com a Reforma Luterana, a Revolução Francesa, Charles Darwin e Revolução Russa. A doutrina viria naturalmente, no ventre da própria igreja, mas Chardin a anteciparia: "O homem como cria e construção do universo, unindo-se cada vez mais com outros homens”.

Resolvido o litígio (capaz de unir ecumênicos e materialistas), faltava a questão capital e aparentemente insolúvel: a presença de Deus nessa união. Chardin refletiu por meses e, por fim, lhe veio a luz: “O Deus que deveríamos crer ainda não existe, mas vai existir. A culpa, portanto, não é humana, mas do Deus que ainda está por vir”.

26 de novembro de 2009

Crianças, Fantasmas e Adultos

Adultos lotando salas de cinema e livrarias à caça de fantasmas, fábulas de vampiros, atrás dos chamados “crossovers”, formatos que, outrora batizados de infanto-juvenis, agora seduzem crianças e adultos. É o caso dos best-sellers (e blockbusters) “Senhor dos Anéis”, “Crepúsculo”, “2012”, “Os Fantasmas de Srooge”.

Em seu novo livro “Como o Mercado Corrompe Crianças, Infantiliza Adultos e Engole Cidadãos” (Record), Benjamim Barber nos lembra que chegaram os “kidadults” (“criançadultos"), nova classe que veio como banquete para a indústria cultural. Barber explica que, depois dos anos 50 (“pós-guerra”), nasceu um tipo especial de amor dos pais pelos filhos, que enchiam suas crianças de esperanças e expectativas, onde rebentos teriam que ser aquilo que “papai e mamãe” não conseguiram.

Isso criou um tipo de consumidor voraz: indivíduos com pouca tolerância às frustrações, às dificuldades e com tendências à satisfação imediata. Efeito moral? Quem cresce sem nunca se deparar com dificuldade, acaba, mais cedo ou mais tarde, vivendo no desespero, porque só consegue atribuir o fracasso à sua própria fraqueza.

18 de novembro de 2009

Entrevista com Deo Lopes

Conheci Deo Lopes em uma de suas apresentações solo, no Café Photozofia (SFX). Sentado ao palco, de sorriso acanhado e inabalável, Deo logo expôs seus caninos de circo, suas veias de trovador. Depois fui à Monteiro Lobato assistir seu grupo regionalista Trem da Viração. Faltava, apenas, conhecê-lo pessoalmente. Então tive o prazer de cair na estrada com esta lenda das margens do Paraíba, com oito discos na bagagem e que, a cada quilômetro, reforçava sua peculiar mistura entre Tom Waits e Antônio Nóbrega, cantando, conversando, ensinando, em silêncio.

Quando
começou a compor?
Componho desde menino, ouvindo músicas sertanejas de raiz. Aos 18, já participava de festivais em São Paulo, Franca, Batatais, São Joaquim da Barra, Piracicaba.
O que a música folk representa, de fato, para você?
Gosto de músicas que falam da natureza, de anseios, contam histórias de dor e esperança. Gosto de música regional, música rústica. Não me preocupo com grandes arranjos. Procuro o conteúdo, a beleza melódica. Tudo é mais simples do que pensamos e queremos.
Algum ídolo eterno em sua jornada?
Alvarenga e Ranchinho, Inhô Pai, Inhô Fio, Cascatinha e Inhana. Na música popular, Chico Buarque, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Jobim, Vinícius, Paulinho Da Viola. Na música internacional, Tom Waits, Philip Glass, Lauri Anderson.
E seus projetos solo, como estão?
Estou preparando um grupo para gravar Abaixo do Sol, projeto que tenho há cinco anos. Tem também o Contador de Canções, que comecei este ano, com direção do Marcos Cuca.

14 de novembro de 2009

Juízos Modernos

A cultura relativista e multiculturalista, mais um desses folclores contemporâneos, afirma que cada período histórico possui suas próprias concepções de mundo e, portanto, jamais poderíamos dizer que uma época foi melhor que outra (particularmente, acho que o homem viveu muito melhor no século XIX do que no XX).

Cada cultura possui um sistema fechado, onde o comportamento apenas pode ser julgado por sua própria cultura. Enfim, não podemos julgar uma cultura utilizando valores de outra. Muçulmanos vão continuar acreditando em paraísos apinhados de virgens. Índios em seus espíritos da floresta. E o ocidente se dissolverá, relativizando a si próprio.

7 de novembro de 2009

Nos Porões da Resistência

Da clássica troca de mimos entre música e política, no final do século XX, nascia a B92, pequena rádio comunitária enfurnada nos escombros de Belgrado durante a guerra da Iugoslávia - que dividira a República Socialista no início da década de 1990. Liderada por jovens obcecados por rock’n’roll, literatura e arte – e oprimidos pelo nacionalismo sangrento de Slobodan Milosevic –, a B92 imprimiu seu sonho de liberdade equipada por um modesto rádio-transmissor e alguns álbuns de rock.
Escrito por Matthew Collin, B92 - Rádio Guerrilha descreve, em pormenores, a empreitada apaixonada desses rapazes, auto-intitulados de “geração perdida”, sôfregos em transmitir seu jornalismo cortante, sua música urgente, pautada pelo grunge de Seattle, o house beat de Chicago e muito hip hop.

Veran Matic, editor e capitão da equipe, lançava campanhas para legalizar a prostituição, o homossexualismo e o uso de drogas leves - além de convocar, em suas entrevistas, ideólogos renegados pelo regime. A B92 era assim, a própria antítese de Milosevic, borrando de vermelho a arquitetura social e política da ex-Iugoslávia.

25 de outubro de 2009

Entrevista com Leona Cavalli

As letras parecem mesmo invadir as artes cênicas. Depois de Vera Fisher (e inúmeros outros atores) lançar recentemente sua biografia, agora foi a vez de Leona Cavalli expor suas inclinações literárias. Revelada pelo teatro paulistano e por mergulhos esporádicos na televisão, a atriz acaba de lançar a obra O Caminho das Pedras, espécie de bússola para intérpretes e aspirantes dos palcos e da teledramaturgia.

Em entrevista para Diários de Babel, Leona explica como surgiu a idéia: “O livro nasceu de palestras e cursos de interpretação que faço, desde 1999, com a dramaturga Ana Vitória Vieira Monteiro, onde abordamos desafios e dilemas da carreira de um ator, como fama, ego, timidez e preconceito”. Atualmente, Leona divide seu tempo entre a montagem de um monólogo para o teatro e sua rotina de gravações na TV. “A carreira de atriz é bastante intensa e cheia de surpresas. Passamos por muitas transformações. Isso é o que verdadeiramente nos apaixona”.

24 de outubro de 2009

Índios e Cabalas


Enquanto os de baixo pregam anjos e demônios, os de cima babam índios fofinhos, cabalas, energias, aquecimento global. O moralismo barato está em voga! A verdade é que todo mundo quer que a economia gire, o dinheiro circule e venha parar em nossos bolsos. Como é difícil esse mundo de gente grande!